Por que pensar em princípio ativo, e não em marca
O Labcon Ictio é verde malaquita, azul de metileno e sulfato de cobre no mesmo frasco. O Seachem ParaGuard é glutaraldeído com verde malaquita. Quem olha só o nome comercial acha que são produtos diferentes; quem olha a composição vê que os dois atacam a mesma classe de alvo — ectoparasitas — e que nenhum serve para verme intestinal ou septicemia. O princípio ativo diz o que o remédio alcança; a marca, só quem o engarrafou.
Uma regra antes de qualquer frasco: este guia não dá dose. Dose errada mata o peixe que se queria salvar — cada dose mora na ficha da doença correspondente, com a fonte ao lado do número. E se o peixe adoeceu agora, o primeiro passo não é o armário: é o protocolo da primeira hora.
Sal não iodado: dois remédios num pacote só
O sal comum sem iodo é o item mais barato do armário e funciona de duas formas que não se misturam. O banho longo — concentração baixa, mantida por dias ou semanas no aquário hospital — dá suporte osmótico e combate ectoparasitas como o do íctio — o Merck descreve salinidade elevada por uma semana como tratamento, se a espécie tolerar. O dip — concentração dezenas de vezes maior, por segundos a minutos — derruba parasitas e muco da pele; a instrução crítica é retirar o peixe ao primeiro sinal de tombamento.
O cuidado que mata: coridoras, cascudos e plantas toleram mal o sal, e o sal de cozinha iodado ou com antiumectante não substitui o sal puro — e sal só sai da água com troca parcial.
Calor: o tratamento que não vem em frasco
O ciclo do parasita do íctio depende da temperatura: rápido no calor, arrastado no frio — e só a fase livre morre com químico. Elevar a temperatura encurta o ciclo; o protocolo da extensão universitária (UF IFAS/TAMU) chega a usar alternância de temperatura como tratamento em si. O preço: água quente carrega menos oxigênio — aeração forte, e nem toda espécie tolera a faixa alta. Quantos graus e por quanto tempo, na ficha do íctio.
Os corantes e o aldeído: azul de metileno, verde malaquita, formalina
Azul de metileno é o clássico para fungos e para proteger ovas — a indicação típica é a saprolégnia e a incubadora. Ele destrói as bactérias do biofiltro e mancha silicone, por isso só entra em aquário hospital ou recipiente nu.
Verde malaquita é o ectoparasiticida dos frascos anti-íctio do mundo inteiro, puro ou combinado com formalina. É também o mais delicado de manusear: cancerígeno em potencial (luvas), tóxico para tetras pequenos e peixes sem escamas em dose cheia.
Formalina aparece em duas frentes: combinada com verde malaquita contra íctio, e como banho curto que é a primeira escolha prática contra brooklynellose e uronemose no marinho — quadros que matam rápido demais para se esperar um tratamento lento. O cuidado que mata: formalina consome o oxigênio dissolvido — banho sem pedra porosa é asfixia programada, e a recomendação universitária é nunca aplicá-la sobre o biofiltro nem em água quente e mal oxigenada. Tóxica também ao aquarista: luvas e ambiente ventilado.
Cobre: o pilar do marinho — e o veneno dos invertebrados
Contra íctio marinho e veludo marinho, cobre é o tratamento de referência das fontes universitárias — e o princípio ativo com a menor margem entre dose que trata e dose que mata: medir com teste é obrigatório. Duas armadilhas documentadas: rocha viva e substrato calcário absorvem o cobre (a dose despenca, o tratamento falha), e ele é letal para todo invertebrado. No doce, o cobre vem escondido em frascos prontos como o Labcon Ictio — mesmo alerta. A versão amina (Seachem Cupramine) tem regra própria: sem condicionadores redutores durante o tratamento, e remoção final com carvão ou resina.
Os específicos: praziquantel, metronidazol, kanamicina
Aqui mora a confusão mais cara do hobby: "verme" não é tudo igual, e antibiótico não é antiparasitário.
| Princípio ativo | Contra o quê |
|---|---|
| Praziquantel | Vermes achatados de pele e guelra (monogenéticos) e cestoides; seguro para a maioria dos peixes segundo o Merck |
| Metronidazol | Protozoários flagelados internos — hexamitose/buraco na cabeça; melhor via: misturado à comida, enquanto o peixe come |
| Kanamicina | Infecções bacterianas — columnariose, septicemia, hidropisia, exoftalmia, podridão de nadadeiras |
| Levamisol / fenbendazol | Nematoides — o verme vermelho Camallanus; metronidazol NÃO serve para nematoide |
O erro em cadeia é tratar Camallanus com metronidazol (não é vermífugo) ou hexamitose com antibiótico (não é bactéria). Comece pela identificação no hub de doenças, não pelo frasco que já está em casa.
O que os frascos BR e Seachem carregam
Tradução da prateleira brasileira para princípio ativo, com a bula como fonte (o site da Alcon bloqueia acesso automatizado; as bulas foram lidas em páginas de lojistas que as reproduzem):
| Produto | O que é por dentro |
|---|---|
| Labcon Ictio | Verde malaquita + azul de metileno + sulfato de cobre — ectoparasitas (íctio, veludo); a bula veta uso com KH baixo e pede cautela com neons e peixes sem escamas |
| Labcon Bacter | Sulfato de neomicina (antibiótico) — quadros bacterianos, em aquário hospital segundo a própria bula |
| Labcon Aqualife | Fungicida (composição não publicada pela fabricante nas páginas acessíveis) — fungo |
| Seachem ParaGuard | Glutaraldeído + verde malaquita — ectoparasitas e lesões externas; rótulo veta invertebrados |
| Seachem Cupramine | Cobre amina — íctio e veludo marinhos |
| Seachem KanaPlex | Sulfato de kanamicina — bacterianas |
| Seachem MetroPlex | Metronidazol — flagelados internos |
| Seachem Focus | Ligante que prende o remédio à comida — permite tratar comendo, com o filtro ligado |
Os três cuidados que valem para o armário inteiro
1. Invertebrados morrem primeiro. Cobre em qualquer dose terapêutica é letal para camarões, caramujos e corais; ParaGuard, KanaPlex e MetroPlex pedem a remoção deles; e o diflubenzuron usado contra piolho de peixe e verme-âncora mata todos os crustáceos do sistema. Com invertebrado no aquário, o tratamento acontece no hospital — mais um motivo para montar a quarentena.
2. Carvão ativado remove o remédio. Ele adsorve boa parte dos princípios ativos e os retira da água em horas: o peixe segue doente e a impressão é de que o remédio "não funcionou". As instruções da Seachem mandam retirar carvão e resinas antes de dosar — e o mesmo raciocínio vale para o esterilizador UV e o ozônio, que degradam moléculas na passagem. Depois do tratamento, o carvão volta justamente para limpar o resíduo.
3. Formalina rouba oxigênio. A repetição é proposital: de todos os itens do armário, é o que mais exige aeração — sobre um peixe que, doente, já respira mal.
Antes de dosar: toda dose desta página se calcula sobre o volume LÍQUIDO — desconte substrato e rochas na calculadora de litragem, e confira amônia e nitrito no diagnóstico do Pulso antes de abrir qualquer frasco.
Perguntas frequentes
Qual remédio serve para tudo no aquário?
Nenhum. Cada princípio ativo mira um tipo de agente: praziquantel só pega verme achatado, metronidazol só protozoário flagelado, kanamicina só bactéria, cobre só ectoparasita. Um produto de amplo espectro é uma mistura de venenos — e um deles pode ser desnecessário para o seu caso e tóxico para o seu aquário. Identifique a doença primeiro; a dose com fonte está na ficha de cada doença.
Posso medicar o aquário principal em vez de usar aquário hospital?
Quase sempre não. Antibióticos como kanamicina e neomicina destroem as bactérias do biofiltro, azul de metileno faz o mesmo, cobre é absorvido pela rocha calcária e mata invertebrados por meses, e as bulas da Labcon recomendam explicitamente aquário hospital para o Bacter. As exceções são tratamentos suaves como sal em dose baixa e calor — e mesmo esses dependem das espécies presentes.
Por que o remédio não funcionou no meu aquário?
As causas mais comuns não são o remédio: carvão ativado no filtro adsorvendo o princípio ativo, esterilizador UV ligado degradando a molécula, diagnóstico errado (amônia alta imita doença) ou um parasita em fase resistente — no íctio e no veludo, só a fase livre morre com químico, por isso o tratamento precisa durar ciclos completos do parasita.
Remédio de peixe mata camarão e caramujo?
Vários matam. Cobre em qualquer forma (inclusive dentro do Labcon Ictio) é letal para invertebrados; o rótulo do Seachem ParaGuard diz que não é recomendado para aquários com invertebrados; KanaPlex e MetroPlex pedem a remoção deles; diflubenzuron mata todos os crustáceos do sistema. Antes de dosar qualquer frasco, leia a composição e tire camarões e caramujos — ou trate em aquário hospital.
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O que do catálogo entra no armário?
Ter o medicamento em casa é o que separa tratar no primeiro dia de correr atrás no terceiro. O que o armário não substitui é diagnóstico: remédio de amplo espectro dado no escuro trata o que o peixe não tem e atrasa o que ele tem. O catálogo do aquacalc reúne os produtos dessa categoria com as informações do fabricante. O aquacalc não vende — monte a sua lista de itens e peça o orçamento à sua loja de confiança.
De onde vêm os números
As indicações de cada princípio ativo seguem o Merck Veterinary Manual — doenças parasitárias de peixes e o Merck Veterinary Manual — doenças bacterianas de peixes. A página lista o que cada grupo trata — e, mais importante, o que ele não trata.
As doses são de rótulo de fabricante, e a página não as converte. Medicamento é a maior responsabilidade que um site de aquarismo pode assumir: onde o rótulo manda, o rótulo vale, e onde produtos declaram grandezas diferentes (cobre ionizado contra quelado, por exemplo) trocar o número entre eles mata o peixe que se queria tratar.
É por isso que o site não tem calculadora de dose de medicamento. A única exceção que consideramos seria uma calculadora de risco — a que distância a dose terapêutica está da letal, dada a sua água —, nunca de dose.
O que é manejo: validade, armazenamento e a lista do que vale ter em casa.
E os ponteiros internos:
- merckvetmanual.com — parasitic diseases of fish — sal em banho longo e dip, praziquantel para monogenéticos, metronidazol como eleição para flagelados, diflubenzuron e seu efeito sobre crustáceos.
- merckvetmanual.com — bacterial diseases of fish — controle do estresse como base do tratamento bacteriano.
- extension.rwfm.tamu.edu — White Spot Infections in Fish (UF IFAS) — protocolo de calor, ciclo do parasita dependente de temperatura, verde malaquita e formalina (toxicidade, consumo de O2, nunca sobre biofiltro).
- ask.ifas.ufl.edu — FA164 (Cryptocaryon) — cobre como referência no marinho, margem de segurança estreita, absorção por rocha calcária, letalidade a invertebrados.
- seachem.zendesk.com — Cupramine — incompatibilidade com redutores, remoção com carvão/resina.
- seachem.zendesk.com — KanaPlex — desligar UV/ozônio e remover carvão e invertebrados.
- seachem.zendesk.com — MetroPlex — metronidazol não é vermífugo; uso com Focus na comida com filtragem ligada.
- dailymed.nlm.nih.gov — rótulo ParaGuard — composição (glutaraldeído + verde malaquita) e veto a invertebrados.
- francoaquarismo.com.br — Labcon Ictio (bula reproduzida por lojista) — composição, restrição de KH e espécies sensíveis.
- petz.com.br — Labcon Bacter (bula reproduzida por lojista) — neomicina e recomendação de aquário hospital.
- cobasi.com.br — Labcon Aqualife (bula reproduzida por lojista) — indicação fungicida; composição não publicada.
- aquariumcoop.com — azul de metileno — uso para fungos e ovas, efeito sobre o biofiltro, mancha em silicone.
- bulkreefsupply.com — quarentena fase 2 — banho de formalina como primeira escolha prática contra brooklynellose e uronemose.