Uma grandeza, três escalas
Salinidade se expressa de três jeitos, e cada instrumento fala um deles. O padrão científico é 35 ppt (gramas de sal por quilo de água — a média dos oceanos sobre recifes fica entre 34 e 36). A tradição do hobby fala em densidade específica 1,0264 a 25 °C — é o que o refratômetro de aquarismo e o densímetro mostram. E os controladores medem condutividade: 53 mS/cm. A tabela de conversão que vale decorar:
| Salinidade | Densidade (25 °C) | Condutividade | Contexto |
|---|---|---|---|
| 30 ppt | 1,0226 | 46,5 mS/cm | Baixo — comum em loja de peixe |
| 35 ppt | 1,0264 | 53 mS/cm | O alvo do reef |
| 40 ppt | 1,0302 | 59,5 mS/cm | Reposição esquecida por dias |
O densímetro de braço — o de agulha flutuante — é o instrumento que mais engana: bolha presa no braço, desgaste do eixo e calibração de fábrica em outra temperatura produzem erros grandes sem nenhum sinal externo. Serve de estimativa grosseira; reef se pilota com refratômetro ou sonda de condutividade.
O refratômetro mente — até você aferi-lo em 35 ppt
Aqui está o erro documentado por Randy Holmes-Farley que quase ninguém conhece: a maioria dos refratômetros vendidos para aquarismo é, na verdade, de salmoura (projetada para NaCl puro, não para água do mar — as escalas divergem). Calibrar só o zero com água RO ajusta o ponto zero e nada mais: na faixa dos 35 ppt, um refratômetro de salmoura descalibrado pode ler a água do seu aquário com erro de até 5 ppt — mostrando 35 quando o aquário está em 30. A solução custa um sachê: solução-padrão de 35 ppt (vendida no Brasil, inclusive pela operação nacional da Hanna). Pingue o padrão, ajuste o parafuso para ler exatamente 35 (ou 1,0264), e só então confie na leitura. Use a compensação de temperatura (ATC) e repita a aferição a cada poucas semanas — o parafuso anda.
A física da evaporação — e por que reposição é doce e TPA é salgada
Quando a água evapora, apenas as moléculas de H2O saem; cada grama de sal fica. Um sistema típico evapora 1 a 2% do volume por dia (tampa, ventoinha, temperatura e clima mudam muito esse número — a ventoinha de verão, em particular, resolve o calor aumentando a evaporação). Num aquário de 200 L, isso são 2 a 4 L diários — e, sem reposição, densidade subindo ~0,0005 por dia. Em uma semana de viagem sem ninguém repondo: +0,0035, o suficiente para estressar coral. Daí as duas regras que não se misturam: evaporação se repõe com água doce (RO/DI, zero TDS — qualquer sal na reposição se acumula para sempre), e TPA se faz com água salgada na mesma salinidade do display, com tolerância de ±0,002 de densidade e temperatura casada. Quem repõe evaporação com água salgada está salgando o aquário aos poucos; quem faz TPA com salinidade diferente dá um solavanco osmótico em tudo que vive ali.
ATO: automatizar sem criar um risco novo
A reposição automática (ATO) é o upgrade de estabilidade com melhor custo-benefício do marinho — a salinidade para de oscilar dia a dia e passa a flutuar em torno do alvo. Mas um ATO é uma bomba ligada num sensor, e sensor falha. O desenho seguro, consolidado pela BRS e pelo padrão dos aparelhos de referência (o Tunze Osmolator é o exemplo clássico), tem três camadas:
| Camada | O que é | Contra qual falha |
|---|---|---|
| Sensor primário | Óptico (sem partes móveis) ou boia | Operação normal |
| Backup de outra tecnologia | Boia mecânica acima do nível do primário | Primário travado ligado |
| Limite de tempo da bomba | Timer interno ou tomada temporizada | Os dois sensores falhando |
E há um failsafe passivo que não depende de eletrônica: o tamanho do reservatório. Se o reservatório de reposição contém só o que o sistema evapora em 2 ou 3 dias, o pior defeito possível despeja pouco: nem inunda a sala, nem dessaliniza o aquário a ponto de matar. Reservatório gigante é conveniência com um modo de falha do tamanho dele. Dois cuidados finais: sensor se limpa (biofilme trava boia e engana óptico — 1 minuto na rotina semanal), e kalkwasser dosado pelo ATO pede respeito dobrado: a água de cal tem pH ~12,4, e uma falha de sensor vira dose cavalar de hidróxido — se for por esse caminho, o reservatório pequeno deixa de ser dica e vira obrigação (o porquê está no guia de suplementação).
Estabilidade vale mais que o número perfeito
Holmes-Farley resume: um aquário parado em 1,027 está ótimo; um aquário serrando entre 1,024 e 1,027 conforme alguém lembra da reposição está sob estresse osmótico contínuo — salinidade um pouco fora e estável é melhor que "certa" e oscilante. É o mesmo princípio da temperatura e da alcalinidade: o custo biológico está na variação, não no decimal. O ATO compra exatamente isso: variação pequena, todo dia, sem depender de memória.
Perguntas frequentes
Minha salinidade subiu para 40 ppt. Corrijo de uma vez?
Não — desça em etapas, ao longo de horas a dias: remova água salgada e reponha com RO/DI aos poucos, medindo. A causa quase sempre é reposição parada ou refratômetro desaferido; conserte a causa junto, ou o número volta.
Quanto meu aquário deveria evaporar por dia?
A ordem de grandeza é 1 a 2% do volume por dia — 2 a 4 L num sistema de 200 L. Tampa reduz muito; ventoinha de resfriamento aumenta; inverno seco aumenta. O número exato importa menos que a consequência: é esse volume que seu ATO repõe e que dimensiona o reservatório.
Densidade 1,025 está errada? Todo mundo fala em 1,025.
1,025 (≈33,5 ppt) está dentro do tolerável e muita gente cria bem assim. O alvo de referência para reef é 35 ppt (1,0264), o valor da água sobre recifes naturais — e para invertebrados exigentes a diferença conta. Mais importante que escolher entre 1,025 e 1,0264 é ficar parado no valor escolhido.
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O que existe no catálogo para salinidade e reposição?
Salinidade estável pede três coisas: sal de qualidade para a TPA, refratômetro aferido com padrão de 35 ppt, e reposição com água doce RO/DI — nunca salgada. O padrão de calibração custa pouco e é o que faz todo o resto dizer a verdade. O catálogo do aquacalc reúne os produtos dessa categoria com as informações do fabricante. O aquacalc não vende — monte a sua lista de itens e peça o orçamento à sua loja de confiança.
De onde vêm os números
A salinidade-alvo e a tolerância de variação são de Randy Holmes-Farley — parâmetros ótimos para um aquário de recife. O ponto da página — que a reposição é o que mantém a salinidade, e não a TPA — é consequência aritmética: evapora água pura, sai só água, e o sal fica.
O dimensionamento do reservatório e o comportamento do ATO seguem Bulk Reef Supply — reposição automática e evaporação, e a calculadora de evaporação e ATO faz essa conta com o seu consumo. O teto do kalkwasser mostra o outro lado da mesma moeda: quando o top-off vira dosagem, a evaporação passa a ser o limite.
O que depende do seu equipamento, e por isso a página não crava: a taxa de evaporação. Ela varia com clima, tampa, iluminação e skimmer, e é por isso que a recomendação é medir a sua em vez de adotar a de alguém.