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Alga peteca: como acabar de vez com a barba preta

Publicado em 14 de agosto de 2026 · leitura de 9 min

Tufos escuros de alga peteca crescendo nas bordas das folhas e num tronco de aquário plantado

Tufos escuros, curtos e duros, agarrados na borda das folhas velhas, no tronco e — sempre — na saída do filtro. Você puxa e ela não sai; corta a folha e ela volta na vizinha. Esta é a alga peteca, também chamada de barba preta ou BBA, e a razão de ela ser tão teimosa é que quase todo mundo trata a causa errada.

Resumo rápido

A peteca não é causada por excesso de ferro — isso é folclore repetido há décadas. A causa consistente é CO₂ mal regulado (instável, ou parado na faixa de 10–15 ppm), somado a fluxo mal distribuído e matéria orgânica acumulada. Ela se instala onde o fluxo é forte porque é uma alga de água corrente: o jato do filtro é o melhor endereço do aquário para quem vive fixo. Remoção: poda do que está tomado, aplicação localizada de glutaraldeído ou água oxigenada com o filtro desligado por 5 a 10 minutos, e SAE — o único peixe que come peteca viva. Blackout não funciona nela. E o que impede a volta não é produto: é CO₂ estável, ligado 2 a 3 horas antes da luz.

Como saber se é peteca mesmo

Ela começa como pontinhos pretos do tamanho da ponta de uma caneta e vira tufo denso de 2 a 5 mm, com aspecto de escova, crescendo em roda a partir do ponto onde grudou. Fica preta, cinza-escura ou quase azulada. É dura ao toque e resiste quando você puxa — diferente da filamentosa verde, que sai enrolada no dedo.

As duas confusões comuns:

  • Chifre-de-veado (staghorn) — filamentos bem mais longos, ramificados e esparsos, com cara de galho de cervo, geralmente acinzentados. É outro bicho, do gênero Compsopogon, e responde a manejo parecido.
  • Filamentosa escura — fio longo, macio, que desenrola no dedo. Essa é alga verde e tem outra causa (luz demais).
O teste de um minuto: arranque um tufo e mergulhe em álcool. Alga vermelha — que é o grupo da peteca e do chifre-de-veado — fica vermelha no álcool. Filamentosa verde escura não faz isso. É o jeito mais barato de não tratar a alga errada.

O nome científico que todo mundo repete está desatualizado

Praticamente toda a literatura de aquarismo chama a peteca de Audouinella. O detalhe que ninguém conta é que a ficologia derrubou esse gênero para água doce: o que se chamava de Audouinella em rio e aquário foi mostrado ser, na verdade, o estágio "Chantransia" de outras algas vermelhas da ordem Batrachospermales — ou seja, uma fase de vida, não uma espécie autônoma. E a correção saiu do Brasil, do grupo do professor Orlando Necchi, na UNESP.

Some-se a isso que ninguém sequenciou a peteca de aquário ornamental: toda atribuição de gênero na literatura de hobby é morfológica. O próprio Tom Barr, uma das referências do assunto, escreve que "algas vermelhas costumam ser mal identificadas". Então a resposta honesta é: é uma alga vermelha filamentosa de identidade não resolvida. Isso não muda nada no tratamento — e muda tudo na confiança que você deve ter em quem afirma o nome com certeza.

A causa real, e por que o ferro não é

O ferro é a explicação mais repetida no conteúdo brasileiro sobre peteca, e ela não se sustenta. O que existe por trás é uma correlação lida como causa: aquário com peteca costuma ter ferro alto porque aquário com peteca é, quase sempre, aquário plantado tecnificado, com CO₂ injetado e fertilização completa. O ferro é marcador do tipo de aquário, não o agente. Quem investigou a fundo é direto: o 2Hr Aquarist escreve que a peteca "tem pouca conexão com nível de nutrientes", e Tom Barr, depois de quinze anos procurando outra causa, diz nunca ter conseguido verificar nenhuma além de CO₂.

O que sustenta a peteca são três coisas que andam juntas:

  1. CO₂ mal regulado Aqui há uma divergência que vale conhecer: Tom Barr aponta a instabilidade como gatilho — cilindro que acaba, válvula que oscila, CO₂ que liga junto com a luz. O 2Hr Aquarist aponta o nível baixo: a peteca prospera quando há CO₂ presente, mas na faixa de 10 a 15 ppm. As duas convergem na prática, porque um aquário mal regulado passa boa parte do dia exatamente nessa faixa. O que ninguém defende é o oposto: CO₂ alto e estável não é o problema.
  2. Fluxo mal distribuído — não "fluxo demais" A peteca aparece na saída do filtro, no difusor e na borda das folhas porque ela é uma alga de água corrente. Sendo fixa, depende do que a água traz até ela, e o jato é a melhor entrega do aquário. Por isso a recomendação certa é contraintuitiva: não é aumentar nem reduzir o fluxo, é homogeneizar. Um jato forte num canto cria a zona perfeita para ela e deixa o resto do aquário com CO₂ irregular, onde as plantas perdem a disputa.
  3. Matéria orgânica acumulada Detrito no substrato, filtro sujo e excesso de ração dão o empurrão — e planta parada por nutriente zerado também produz esse material (a Lei do Mínimo explica por quê). E há um mecanismo específico e elegante para a borda da folha velha: a planta libera parte dos metabólitos pela superfície e pela margem das folhas, e defende menos as folhas antigas, que valem pouco para ela. A margem da folha velha junta, no mesmo ponto, fluxo e alimento — é o endereço ideal da peteca.
O drop checker verde engana. A cor verde do drop checker corresponde a cerca de 10 a 15 ppm de CO₂ — que é justamente a faixa em que a peteca vai melhor. Quem confia no verde pode estar mantendo o aquário na janela dela sem saber. Meça pela queda de pH: cerca de 1,0 ponto em relação à água desgaseificada equivale a 30 ppm ou mais.
🫧 Não confie no drop checker: a calculadora de CO₂ converte pH e KH em ppm — o verde pode ser exatamente a faixa de 10–15 ppm em que a peteca prospera.

O protocolo de remoção

A ordem importa, e o primeiro passo é o que quase todo mundo pula.

  1. Corrija a causa antes de matar a alga Se você matar a peteca com o CO₂ do mesmo jeito, ela volta em semanas — e você vai culpar o produto. Ajuste o CO₂ e o fluxo primeiro, ou faça as duas coisas juntas. Sem isso, o resto é estética temporária.
  2. Pode o que está muito tomado Folha velha coberta não se recupera e vira sementeira. Corte rente e tire do aquário. Hardscape muito infestado pode sair para tratamento fora d'água.
  3. Aplicação localizada, com o filtro desligado Glutaraldeído (o "carbono líquido") ou água oxigenada 3%, com seringa, a 1 ou 2 cm do tufo, filtro desligado de 5 a 10 minutos para o produto não se dispersar. No máximo duas vezes por semana. A alga fica vermelha ou rosa em horas — é o pigmento vermelho aparecendo quando a célula é danificada — e depois embranquece. Ela não cai sozinha na hora: morre presa, e quem limpa o resto são os comedores e a manutenção.
  4. Ponha um SAE — e só ele come peteca viva O Crossocheilus (SAE) é o único comedor com consenso para peteca viva. Camarão amano, otocinclus, neritas e cascudos comem a peteca depois de morta pelo tratamento, o que ajuda na limpeza mas não controla o surto. Duas ou três unidades para cerca de 200 litros é a densidade citada.
  5. Sifone e troque água Três trocas de 50% em uma semana durante o surto, e limpeza do filtro. Depois, 30 a 50% por semana. Isso ataca a terceira perna: a matéria orgânica.

As doses, e de quem elas são

ProdutoDose citadaQuem publica
Glutaraldeído comercial (1,5–2,5%)1–2 mL por 50 L, manutençãoAquasabi (Easy Carbo)
Glutaraldeído comercial1 mL por 20 L diário; nunca passar de 1,5 mL por 20 LGensou
Água oxigenada 3%0,5 a 0,7 mL por litro, 3 a 4 dias seguidos, com TPA de 50% ao finalAquasabi
Água oxigenada 3%~0,4 mL por litroBuce Plant
Banho de plantas novas (água sanitária)1 parte para 19 de água, 2 a 3 minutosTom Barr
Banho de plantas delicadas (musgo, Cryptocoryne)1:20 por no máximo 20 a 90 segundos2Hr Aquarist / Buce Plant

Depois de qualquer banho: enxágue em água corrente e deixe de molho em água com anticloro antes de plantar.

Camarão: o cuidado que os rótulos não dão. Não existe dose letal publicada de glutaraldeído para Neocaridina ou Caridina — o que existe é toxicologia para Daphnia, um crustáceo de água doce, e ela é assustadora: um estudo do dossiê da OCDE aponta LC50 de 0,35 mg/L e outro, no mesmo documento, 16,3 mg/L — 46 vezes de diferença. Se o número baixo estiver certo, a dose de manutenção citada acima já está acima dele. Peixe aguenta bem mais (LC50 de 11 mg/L em bluegill), e é por isso que o produto "funciona sem matar peixe" — mas o crustáceo pode estar dentro da faixa que mata a alga. Com camarão no aquário: metade da dose de rótulo, aplicação localizada, nunca dobrar. Essa recomendação é nossa, por extrapolação — e é conservadora de propósito.
Plantas que reclamam do glutaraldeído: Vallisneria (a própria Seachem admite derretimento em dose dobrada), musgos, Riccia, Riccardia, Elodea, chifre-de-veado (Ceratophyllum), algumas Cryptocoryne e Rotala. Nesses aquários, comece com um quarto da dose e observe duas semanas.

Duas coisas que não funcionam — e uma que é marketing

Blackout não resolve peteca. Escurecer o aquário por dias funciona bem contra cianobactéria e contra boa parte das algas verdes, e é descrito como "quase totalmente ineficaz contra algas vermelhas". A peteca é alga vermelha: ela tem pigmentos acessórios que aproveitam luz onde a clorofila comum não aproveita, e atravessa o blackout confortável enquanto suas plantas sofrem.

Reduzir o fluxo não resolve, e parte do conteúdo brasileiro recomenda isso. Já foi dito acima o porquê: ela é alga de correnteza, e a alavanca é distribuição, não intensidade.

"Carbono líquido" não é fertilizante de carbono. A conta é conhecida: a dose de rótulo entrega algo entre 15 e 20 vezes menos carbono do que uma planta precisa. O efeito real do produto é biocida — ele funciona contra alga porque é um desinfetante em dose baixa, não porque alimenta a planta. Saber disso muda como você usa: como bisturi localizado, não como suplemento diário.

Como impedir que volte

  • CO₂ ligado 2 a 3 horas antes da luz e desligado cerca de 1 hora antes de apagar. O aquário leva de 3 a 5 horas para saturar — ligar junto com a luz é chegar atrasado todo dia.
  • Alvo de 25 a 35 ppm, medido por queda de pH, não pela cor do drop checker.
  • Fluxo distribuído: reoriente a saída em vez de aumentar a bomba. Se há canto com detrito parado e outro com jato batendo na folha, o problema é distribuição.
  • TPA de 30 a 50% por semana e limpeza de filtro a cada 4 a 6 semanas.
  • Quarentena de planta nova — é assim que a peteca entra na maioria dos aquários. Use um dos banhos da tabela, ou compre cultura in vitro, que é estéril por definição.

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Que produto entra no tratamento — e em que papel

O que resolve peteca é CO₂ estável e fluxo, não frasco. Produto entra em UM papel: aplicação localizada com seringa e filtro desligado, no tufo, para matar o que já está grudado — e o carbono líquido (glutaraldeído) é o mesmo que derrete Vallisneria e musgo na dose de rotina. Comprar sem corrigir a causa é pagar para adiar. O catálogo do aquacalc reúne os produtos dessa categoria com as informações do fabricante. O aquacalc não vende — monte a sua lista de itens e peça o orçamento à sua loja de confiança.

Perguntas frequentes

Alga peteca ou peteleca? Qual o nome certo?

A grafia estabelecida no aquarismo brasileiro é peteca — é como escrevem os artigos, os fóruns e até o nome comercial de produto de prateleira. "Peteleca" aparece na fala e em digitação, mas não é a forma consolidada. Outros nomes da mesma alga: barba preta, barba negra, pincel e BBA (de black beard algae).

Excesso de ferro causa alga peteca?

Não. É a explicação mais repetida e não se sustenta: aquário com peteca costuma ter ferro alto porque é aquário fertilizado com CO₂ injetado — o ferro é marcador do tipo de aquário, não a causa. As duas referências que investigaram o assunto a fundo apontam CO₂ mal regulado, e uma delas afirma que a peteca tem pouca relação com nível de nutrientes.

Blackout funciona para alga peteca?

Não. O blackout é eficiente contra cianobactéria e contra a maioria das algas verdes, e é descrito na literatura como quase totalmente ineficaz contra algas vermelhas — que é o grupo da peteca. Ela tem pigmentos que aproveitam pouca luz, então atravessa o escuro melhor que suas plantas.

Que peixe come alga peteca?

O SAE (Crossocheilus) é o único com consenso para comer peteca viva, e come mais quando é jovem — adulto e bem alimentado, ele para de raspar. Camarão amano, otocinclus e neritas comem a peteca depois de morta pelo tratamento. O "algae eater chinês" (Gyrinocheilus) não serve: só come alga enquanto é pequeno e depois passa a atacar o flanco de outros peixes.

Posso usar glutaraldeído com camarão no aquário?

Com cuidado e em dose reduzida. Não há dose letal publicada para camarão anão de aquário; a toxicologia disponível é para Daphnia, e os próprios dados divergem em 46 vezes entre dois estudos. Peixe tolera bem mais que invertebrado, o que significa que a faixa que mata a alga pode alcançar o camarão. Use metade da dose de rótulo, aplique localizado e nunca dobre.

Quanto tempo leva para a alga peteca sumir?

A cor muda em horas — ela fica vermelha ou rosa e depois embranquece. O aquário limpo leva de 2 a 4 semanas, porque a alga morta continua presa até ser consumida ou raspada. Se depois de três semanas ela volta igual, a causa não foi corrigida: não é caso de repetir o produto.

Fontes: 2Hr Aquarist — controle de BBA · Tom Barr sobre a causa · Aquasabi — BBA · Aquasabi — blackout e algas vermelhas · 2Hr — CO₂ e medição por pH · Necchi & Zucchi — estágios "Chantransia" · OCDE SIDS — toxicidade do glutaraldeído · Aquarium Breeder — o mito do carbono líquido